sexta-feira, 2 de julho de 2010

O acordo da discórdia....

Confesso que não sou avesso às mudanças, mas há certas coisas que teimam em resistir. Falo do novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa. Muita tinta e muitos caracteres já foram utilizados para opinar sobre este assunto, e o que escreverei aqui é mais uma opinião de uma pessoa que, embora tenha de o aceitar por força da profissão que exerce, irá certamente custar a adaptar-se. Não estou contra o acordo, antes pelo contrário, sou a favor. Já há muito que este acordo deveria ter entrado em vigor, mas por questões políticas, foi adiado várias vezes.


A nossa língua é um património valioso, mas a ortografia não. Por isso é que a língua, a forma como escrevemos vai mudando ao longo dos tempos…é uma questão de evolução natural. Como escreveu Malaca Casteleiro, professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa num artigo de opinião no Diário de Notícias em 2008 que «que embora Portugal seja o berço da língua portuguesa, não é no mundo de hoje o seu único proprietário», por isso o que temos de fazer é seguir esta evolução e acompanhar o seu crescimento no mundo.

Alguns factos históricos da unificação da ortografia da Língua Portuguesa:

Falar sobre o novo acordo ortográfico implica saber que em termos históricos já se fizeram várias tentativas de unificação da ortografia da língua portuguesa, sendo que a primeira data de 1911, que culminou em Portugal na primeira grande reforma. Depois existiram várias tentativas, sendo a mais importante a de 1990 que é a que está por trás de todo o celeuma levantado actualmente sobre esta questão.

Quando vai entrar em vigor este acordo?

Seguindo o disposto numa reunião da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), realizada em Julho de 2004 em São Tomé e Príncipe, ficou decidido que para o novo acordo entrar em vigor, bastaria que três países o ratificassem. O Brasil em Outubro de 2004, Cabo Verde em Abril de 2005 e São Tomé em Novembro de 2006 ratificaram o acordo, estando assim cumprido o disposto nessa reunião da CPLP. Em Portugal, este acordo foi ratificado pelo Governo a 6 de Março de 2008, faltando a aprovação no Parlamento ou pelo Presidente da República. Caso seja aprovado, entrará imediatamente em vigor, no entanto está permitida uma fase de adaptação de 6 anos onde são permitidas as duas grafias.

O que muda, afinal?

O alfabeto português passará de 23 para 26 letras, com a inclusão em definitivo do k (capa ou cá), do w (dáblio, dâblio ou duplo vê), y (ípsilon ou i grego).

O uso de maiúsculas e minúsculas obedece a novas regras:

1. os meses do ano e os pontos cardeais deverão ser escritos em minúsculas (janeiro, fevereiro e norte, sul, etc.).

2. poder-se-á usar maiúsculas ou minúsculas em títulos de livros, no entanto a primeira palavra será sempre maiúscula (Insustentável Leveza do Ser ou Insustentável leveza do ser)

3. também é permitida dupla grafia em expressões de tratamento (Exmo. Sr. ou exmo. sr.) em sítios públicos e edifícios (Praça da República ou praça da república) e em nomes de disciplinas ou campos do saber (História ou história, Português ou português)

A supressão de consoantes mudas tal como o nome indica, vai levar ao desaparecimento de consoantes, em que o critério para tal é a sua pronúncia.

1. cc - ex.: transacionado, lecionar. Mantém-se em friccionar, perfeccionismo, por se articular a consoante.

2. cç – ação, ereção, reação. Mantém-se em fricção, sucção.

3. ct – ato, atual, teto, projeto. Mantém-se em facto, bactéria, octogonal.

4. pc – percecionar, anticoncecional. Mantém-se em núpcias, opcional.

5. pç – adoção, conceção. Mantém-se em corrupção, opção.

6. pt - Egito, batismo. Mantém-se em inapto, eucalipto.

Passam a ser suprimidos alguns acentos gráfico em palavras graves: crêem, vêem, lêem passam a creem, veem e leem; pára, pêra, pêlo, pólo passam a para, pera, pelo e polo. As palavras acentuadas no ditongo oi e ei passam a ser escritas sem acento: estoico, paleozoico, asteroide e boleia, plateia, ideia. Existe também a supressão completa do trema(¨): aguentar (e não agüentar), frequente (e não freqüente), linguiça (e não lingüiça). Supressão do acento circunflexo em abençoo, voo, enjoo.

O uso do hífen vai ser suprimido em:

1. palavras compostas em que o prefixo termina em vogal e o sufixo começa em r ou s, dobrando essa consoante: cosseno, ultrassons, ultrarrápido.

2. o prefixo termina em vogal diferente da incial do sufixo: extraescolar, autoestrada, intraósseo.

3. formas monossilábicas do presente do indicativo do verbo haver: hei de, hás de.

O hífen emprega-se em:

1. palavras compostas onde a última vogal do prefixo coincide com a inicial do sufixo, excepto o prefixo co- que se algutina ao sufixo iniciado por o: contra-almirante, micro-organismo, coobrigação.

2. palavras que designam espécies da Biologia ou Zoologia: águia-real, couve-flor, cobra-capelo.

Pode existir dupla grafia em algumas palavras?

Sim. Isso está previsto no novo acordo por existirem diferenças na pronúncia de país para país assim temos:

característica  - caraterística

intersecção -  interseção

infeccioso  - infecioso

facto -  fato

olfacto -  olfato

conceção - concepção

súbdito - súdito

amnistia - anistia

amígdala - amídala

súbtil - sútil

académico  - acadêmico

ingénuo - ingênuo

sénior - sênior

cómico - cômico

vómito - vômito

fémur - fêmur

abdómen - abdômen

bónus - bônus

bebé - bebê

puré - purê

judo - judô

metro - metrô

andámos - andamos

Argumentos a favor

- aproximação da oralidade à escrita

- actualmente a Língua Portuguesa é a única que tem duas grafias oficiais

- simplicidade de ensino e aprendizagem

- unificação de todos os países de língua oficial portuguesa

- fortalecimento da cooperação educacional dos países da CPLP

- evolução da língua portuguesa

- pequena quantidade de vocábulos alterados (1,6% em Portugal e 0,45% no Brasil)

- o português é o 5º idioma mais falado no mundo e o 3º no mundo Ocidental. A unificação das grafias permite aumentar, ou pelo menos manter a força da Língua Portuguesa no panorama mundial

Argumentos contra

- evolução não natural da língua

- tentar resolver um “não-problema”, uma vez que as variantes escritas da língua são perfeitamente compreensíveis por todos os leitores de todos os países da CPLP

- desrespeito pela etimologia das palavras

- a não correspondência da escrita à oralidade. Por exemplo, existem consoantes cuja função é abrir vogais, mas que o novo acordo considera mudas nomeadamente em tecto, passando a escrever-se teto, dever-se-ia ler como teto (de seio)?

- processo dispendioso (revisão e nova publicação de todas as obras escritas, os materiais didáticos e dicionários tornar-se-ão obsoletos, reaprendizagem por parte de um grande número de pessoas, inclusivé crianças que estão agora a dar os primeiros passos na escrita)

- o facto de não haver acordo, facilita o dinamismo da língua, permitindo cada país divergir e evoluir naturalmente, pelas próprias pressões evolutivas dos diferentes contextos geo-sócio-culturais como no caso do Inglês ou do Castelhano

- afecto com a grafia actual

- falta de consulta de linguistas e estudo do impacto das alterações